Sobre Meninos e Lobos - Resenha
Os Imperdoáveis
Vencedor de quatro Oscar, e indicado a nove, o filme Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood, é considerado o melhor filme do gênero Western dos últimos anos.
Na história, o próprio Eastwood faz o papel do ator principal, William Munny, um fora-da-lei aposentado que recebe uma proposta tentadora de Schofield Kid (Jaimz Woolvett) para cometer dois últimos crimes em troco da recompensa.
O filme começa com um vaqueiro, acompanhado por um amigo, atacando uma prostituta em uma pequena cidade – Big Whiskey – no estado do Wyoming. Ofendido pela mesma, o cowboy esfaqueia-a no rosto, deixando cicatrizes e um desejo de vingança nas mulheres do bordel.
Mesmo após as punições serem aplicadas pelo xerife Little Bill (Gene Hackman) aos dos cáubois envolvidos na história, as prostitutas, lideradas por Strawberry Alice (Frances Fisher), divulgam que pagarão uma recompensa de 1000 dólares pela cabeça dos dois caubóis envolvidos.
A notícia chega ao Tennessee e o garoto Schofield Kid vai à procura de Bill Munny para encontrar um parceiro para a caçada. À princípio Bill Munny não topa o acordo e prefere continuar com seus filhos em sua fazenda, mas após pensar na enorme quantia de dinheiro, o personagem de Clint Eastwood decide sair ao encalço do garoto juntamente com seu antigo parceiro Ned Logan (Morgan Freeman).
O filme trata o personagem de Bill Munny como um ex-criminoso que se recuperou de suas maldades após encontrar o amor de uma jovem já falecida na história. Arrependido, e com filhos para criar, o personagem de Eastwood evita ao máximo os fantasmas do passado atroz e principalmente o Whiskey, que era, segundo ele, o combustível alimentador de suas atrocidades.
Após a proposta, Bill Munny pensa na estagnação de sua vida e se lança em uma última aventura para trazer dinheiro para casa e aumentar a perspectiva de vida de seus filhos – duas crianças, um homem e uma mulher.
Na jornada clássica dos antigos Westerns, os três companheiros atravessam a região central dos Estados Unidos à cavalo. Bill Munny e Ned Logan, antigos amigos e companheiros, se incomodam com a postura de Schofield Kid, um garoto falastrão que tenta sempre se mostrar valente e cruel. Experientes, os dois antigos parceiros questionam a experiência de Schofield, mas veem o laço de amizade se reforçarem.
A trama segue até os três chegarem à cidade de Big Whiskey e, enquanto estão no caminho, se desenvolve paralelamente um outro embate na cidade. O xerife Little Bill fica sabendo da chegada de English Bob e os dois trocam farpas em Big Whiskey, o inglês acaba sendo preso e espancado para servir como exemplo. Posteriormente o xerife o “deporta” do pequeno condado.
Na sequência os três viajantes chegam à Big Whiskey e a trama se desenvolve com o envolvimento com as prostitutas, incia-se a busca dos três pelos dois caubóis e origina-se o embate com o xerife Little Bill. Bill Munny volta a beber seu Whiskey.
Matéria do Estadão sobre Clint.
Um certo senhor Eastwood
Como John Wayne, Clint Eastwood é um ator carismático, um pouco subestimado, que não nasceu para representar Rei Lear. Não está na mesma categoria de Nicholson, Hoffman, Hackman e Freeman, muito menos na de Day-Lewis, mas é muito superior aos seus contemporâneos, como Harrison Ford. E ninguém mais teve uma carreira como a sua: Três Homens em Conflito, Perseguidor Implacável, Bird, Os Imperdoáveis, Na Linha de Fogo, As Pontes de Madison, Menina de Ouro, Gran Torino, Sobre Meninos e Lobos...
Coppola, Scorsese e Spielberg, verdadeiras lendas, fizeram filmes melhores, mas nenhum deles foi ator. Nicholson dominou a psique americana desde Sem Destino, em 1969, mas suas tentativas na direção não foram tão bem-sucedidas e ele não é adorado pela classe média americana como Eastwood.
Redford, De Niro, Marlon Brando e Barbra Streisand, entre outros, também alcançaram certo sucesso como diretores, mas não na escala de Eastwood, que dirigiu 30 filmes, e é considerado um diretor sério. Sim, houve Orson Welles, esplêndido ator e diretor. Mas sua carreira acabou cedo. Sua queda em desgraça foi o acontecimento mais triste da história do cinema americano.
A comparação mais óbvia é com Mel Gibson, sólido diretor bem-sucedido que é também ótimo ator. Mas não é tão produtivo quanto Eastwood, nem tão variado. E Gibson é australiano, não americano e jamais será "adorado". No fim, nenhum outro ator-diretor - nem Beatty, Costner ou Woody Allen - teve uma carreira como a de Eastwood. Ele é único.
Sergio Leone. A formação de Eastwood, nascido em 1930, foi fortemente influenciada pela década do seu nascimento e pelos anos 60. Os melhores filmes dos anos 30 e 40 são unidos por uma clara visão moral: a boa vontade predomina sobre o mal, mas levará algum tempo para que isso aconteça. Nos "spaghetti western" que o tornaram famoso, o triunfo do bem sobre o mal leva ainda mais tempo. Trabalhar com o diretor Sergio Leone foi uma grande influência estilística sobre Eastwood, que nunca teve pressa de chegar lá.
Os "spaghetti western" avançaram a um passo lânguido, assim como os de Eastwood. Os primeiros, como O Estranho Sem Nome, começam com uma explosão e depois baixam o tom, e então chegam ao grande final, como Os Imperdoáveis. Em Por Um Punhado de Dólares, o filme que o tornou famoso, o estrangeiro alto e magro, enigmático, que se dispõe a ajudar os pobres mexicanos oprimidos. Em Gran Torino, um enigmático estrangeiro alto e magro chega para ajudar os pobres imigrantes do Sudeste Asiático. Algumas coisas mudam. Outras não.
Filho da Grande Depressão, o ator compreendeu que o único crime imperdoável era parar de trabalhar. Fez todo tipo de filmes e rapidamente. Não gastou muito com astros ou efeitos especiais. Se um filme não tinha sucesso, tentava algo diferente. Então, se sua carreira de diretor estacionava, contratava a si mesmo como ator. Ao contrário de Beatty e de Welles, não parece ter tido medo do fracasso, nem parece se importar com críticas.
William Goldman, provavelmente o mais famoso roteirista do mundo, trabalhou com Eastwood em Poder Absoluto. Ele acha que Eastwood, como Paul Newman, se beneficiaram pelo fato de adiarem sua gratificação. "O motivo pelo qual eles eram tão incríveis é que não se realizaram muito cedo na vida." Também destacou a qualidade do trabalho de Eastwood numa idade tão avançada. "Os diretores perdem esta capacidade aos 60 porque estão ricos demais ou não conseguem mais trabalho. E é um trabalho cansativo. É por isso que Gran Torino me impressiona. Ele está com quase 80 e ainda pode fazer um filme como este. Sua carreira é fantástica."
Clint Eastwood entra na categoria dos artistas - como Sean Connery e Judy Garland - que fazem algo maravilhoso no início da carreira, e por isso o público tem com eles uma dívida eterna de gratidão. O público nunca esquece Por Um Punhado de Dólares, porque insuflou vida em um gênero que estava morrendo e porque Eastwood - de poncho e cigarrilha - fez um tipo incrivelmente cool. E, de algum modo, Eastwood conseguiu enterrar o estigma direitista de Dirty Harry que o perseguiu na década de 70.
Na época em que Hollywood se preocupavam com a possibilidade de seu país se tornar um Estado policial - no governo de Richard Nixon -, Eastwood fazia filmes bajulando um policial corrupto. Um exemplo do politicamente incorreto. Mas ele abrandou e cresceu como artista com o passar do tempo: O Estranho Sem Nome (1973) começa com três assassinatos e um estupro; As Pontes de Madison (1995) não tem nada disso.
Em defesa de Eastwood, os filmes do tipo Perseguidor Implacável, que alguns consideram questionáveis, eram pouco mais que A Marca da Forca transposto para os tempos modernos. Homens desagradáveis infernizam a vida de cidadãos comuns, e a polícia não consegue controlá-los. No meio da confusão chega um misterioso psicopata que fica do lado dos anjos e briga por eles. Ninguém se importou quando Eastwood fez isso em Por Um Punhado de Dólares, O Estranho Sem Nome, assim como ninguém se importou quando ele voltou ao tema em Os Imperdoáveis. Somente quando o anjo vingador aparece na cidade, os defensores das liberdades civis se revoltam.
Heróis. Os westerns são ambientados em uma era em relação à qual os americanos se sentem tranquilos; todos têm uma arma, enquanto os pistoleiros fazem a própria lei. Nos filmes sobre policiais corruptos, não. Se alguém faz a própria lei no fim do século 19, é herói. Se faz isso no fim do século 20, é fascista.
Como Denzel Washington, um ator muito melhor, o diretor mostra para o mundo uma imagem dos Estados Unidos que deixa os americanos confortáveis.
Num aspecto, Eastwood se parece com os grandes diretores que o antecederam, como Hitchcock e Huston: nunca parou de bater o cartão. Ao contrário de autores sensíveis, que precisam afastar-se por alguns anos para contemplar o próximo projeto, ele não parou de fazer filmes desde sua estreia, em 1971.
Trabalhando com os mesmos colaboradores, fez obras intelectualizadas como Bird e Coração de Caçador, de terror como Perversa Paixão, comédias extravagantes como Bronco Billy e Cowboys do Espaço, sentimentais como Invictus, e épicos como A Conquista da Honra.
Com base em grandes romances, fez ótimos filmes (Sobre Meninos e Lobos), mas o que é mais impressionante é que, de um livro horrível, ele fez um belo trabalho (As Pontes de Madison). Se por algum tempo parecia que sua inspiração estava esgotada, ele sempre achava um modo de se recuperar.
Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, Crime Verdadeiro e Dívida de Sangue foram lançados numa rápida sucessão. Eram ruins. Depois vieram Sobre Meninos e Lobos e Menina de Ouro, bem melhores. Ele estrelou ou dirigiu poucos filmes realmente ruins. É que ele evitava as comédias: filmes policiais podem ser até ruins, mas no caso das comédias, o céu é o limite. Seus piores filmes são os que ele fez com Sondra Locke. Entretanto, o único absolutamente ridículo (sem orangotango) é Os Aventureiros do Ouro, o horrível musical de 1969, que até tem uma virtude: é completamente maluco.
Os filmes de Clint Eastwood não são densos em termos de conteúdo filosófico. Ele gosta de fazer filmes em que o indivíduo anônimo se revolta e o povo precisa de um defensor. Ele próprio conservador, consegue, de algum modo, fazer uma síntese do ponto de vista da direita e da esquerda em seus filmes. No mundo de Eastwood, há sempre alguma coisa para todos, desde que não façam objeção a um pouco de violência.
Ele também nunca hesitou em se divertir e rir com seus personagens. Gran Torino, no qual Eastwood literalmente grunhe, pisca e diz palavrões e fica apontando armas o tempo inteiro, é muito engraçado. Assim como Cowboys do Espaço.
Considerado um tesouro nacional, Eastwood estreou no cinema em 1955, no papel de um técnico de laboratório em A Revanche do Monstro. Naquele ano, Marlon Brando e Frank Sinatra fizeram Eles e Elas.
A sua é uma longa carreira. Ele sobreviveu a todos os seus notáveis contemporâneos. Diretores e astros vêm e vão; Eastwood permanece. Continua a trabalhar, agora está dirigindo Hereafter, seu 31.º filme. "Um homem deve conhecer suas limitações" é a frase famosa que ele diz no fim de Magnum 44. Mas parece que Clint Eastwood não tem limitações. TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
Cinco personagens
JOE
1964
"Meu erro. Quatro caixões." (Por Um Punhado de Dólares)
BLONDIE
1966
"Neste mundo, há apenas dois tipos de pessoas, meu amigo: as que têm uma arma carregada, e as que cavam. Você cava." (Três Homens em Conflito)
JOSEY WALES
1976
"Morrer não é vida, camarada." (Josey Wales - O Fora da Lei)
HARRY CALLAHAN
1983
"Vá em frente, me faça ganhar o dia." (Impacto Fulminante)
PREACHER
1985
"Nada se compara a um bom pedaço de nogueira." (O Cavaleiro Solitário)
Filmografia
| Ano | Título | Papel |
| técnico de laboratório | ||
| (não creditado) | ||
| Jonesey | ||
| First Saxon | ||
| (não creditado) | ||
| Líder do esquadrão de jatos | ||
| (não creditado) | ||
| Will | ||
| (não creditado) | ||
| Tom | ||
| (não creditado) | ||
| oficial da Marinha | ||
| (não creditado) | ||
| tenente Jack Rice | ||
| Dumbo Pilot | ||
| (não creditado) | ||
| George Moseley | ||
| Keith Williams | ||
| Rowdy Yates (1959-1966) | ||
| Monco (The Man with No Name) | ||
| Blondie (The Man with No Name) | ||
| Charlie (segmento de "Una sera come le altre") | ||
| Marshall Jed Cooper | ||
| vice-xerife Walt Coogan | ||
| tenente Morris Schaffer | ||
| Sylvester 'Pardner' Newel | ||
| Hogan | ||
| Soldado Kelly | ||
| Cabo John McBurney | ||
| David 'Dave' Garver | ||
| (também dirigiu o filme) | ||
| Inspetor 'Dirty' Harry Callahan | ||
| Joe Kidd | ||
| The Stranger | ||
| (também dirigiu o filme) | ||
| Harry Callahan | ||
| diretor do filme | ||
| Thunderbolt | ||
| Dr. Jonathan Hemlock | ||
| (também dirigiu o filme) | ||
| Josey Wales | ||
| (também dirigiu o filme) | ||
| Harry Callahan | ||
| Ben Shockley | ||
| (também dirigiu o filme) | ||
| Philo Beddoe | ||
| Bronco Billy McCoy | ||
| (também dirigiu o filme) | ||
| Philo Beddoe | ||
| Mitchell Gant | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| Red Stovall | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| Harry Callahan | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| Wes Block | ||
| (também produziu o filme) | ||
| tenente Speer | ||
| pregador | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| sargento Tom 'Gunny' Highway | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| Harry Callahan | ||
| dirigiu e produziu o filme | ||
| produtor executivo | ||
| Tommy Nowak | ||
| John Wilson | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| Nick Pulovski | ||
| (também dirigiu o filme) | ||
| William 'Bill' Munny | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| agente do serviço secreto Frank Horrigan | ||
| Chief Red Garnett | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| Robert Kincaid | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| produtor | ||
| dirigiu e produziu o filme | ||
| Luther Whitney | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| Steve Everett | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| Dr. Frank Corvin | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| Terry McCaleb | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| dirigiu e produziu o filme | ||
| Frankie Dunn | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| dirigiu e produziu o filme | ||
| dirigiu e produziu o filme | ||
| Walt Kowalski | ||
| (também dirigiu e produziu o filme) | ||
| |
